lê ! não tapes os olhos!

domingo, 31 de janeiro de 2010

O ex Amor


Carrego coisas que me fazem lembrar-te. Não consigo deitar fora tudo o que um dia foi indescritível. As palavras fogem do meu pensamento, quando me reporto a tempos remotos, quando chego a ti. Tudo acabou isso eu sei, mas tudo ainda vive. Mudaste completamente o significado da palavra amor em mim. Reescreveste a tinta preta os traços do meu coração desalinhado, juntando as linhas soltas que se encontravam no nexo do vazio. Subjugaste o ódio a nada e elevaste o amor ao expoente máximo. Relativizaste o ciúme e deste-o como perdido no vale da armagura. Enfraqueceste a armadura, destruiste muralhas e deixaste-me assim. Assim á mercê de quem vem e nada quer, assim na terra dos indefesos, em terras da vulnerabilidade. Sobrevivi e sobrevivo. Cada dia que passa a muralha cresce e a armadura fortifica-se. Aos poucos e poucos vou chegar a mim, vou chegar á terra dos protegidos, às terras de nossa majestade. Até lá seguirei aquela estrela. Não me demovas, deixa-me apenas ir. Quero crescer sem adubos ou fertilizantes, quero ser natural, quero ser eu.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão

Mas as coisas findas
muito mais que lindas,
essas ficarão



Memória, Carlos Drummond de Andrade

Clareira dos Sentidos


Meros selvagens sedentos de erros perdoáveis sentam-se numa clareira e desafiam o destino. Agarram punhados de terra seca e choram sobre ela, enxugam qualquer resto de mágoa. Gritam aos ventos amordaçando a dor que dói, a dor que destrói. Ciclones atordoam as suas mentes impedindo-os de sentir o outrora sentido. Ali, no meio do nada, só o vazio os acompanha. Procuram a vida quando não há nada, procuram a sede quando não há água. Só a morte persiste, só a morte existe. Cavam desenfreadamente para a fuga (pensam eles, pequenos inócuos) mas mais nada existe só terra seca e miragens. Ajoelham-se aos céus pedindo uma luz, mas nuvens perseguem-se loucamente fechando qualquer abertura entre elas. É o fim do nada, a morte vem o pano cai e eles vão.